Escrito por Prof. João Carlos às 22h17
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Coronelismo, enxada e voto

Resenha: 

Victor Nunes Leal

 

O fenômeno denominado coronelismo foi fundamental para que as elites políticas tradicionais garantissem a manutenção do poder no período denominado República Velha (1889-1930).

A importância dos coronéis – que economicamente se encontravam decadentes – foi “ressuscitada” pela ampliação – na Constituição de 1891 – do direito ao voto. Pois, o voto deixou de ser balizado pela renda (voto censitário) e passou – a partir de 1891 – a corresponder a critérios “mais amplos” como ser brasileiro ou naturalizado, do gênero masculino, maior de 21 anos e alfabetizado. Tais critérios tornaram uma massa de trabalhadores rurais eleitores, rompendo com a velha estrutura de partidos de quadros estabelecida na Monarquia e aumentando a distância entre os políticos e os novos eleitores.

É nesse contexto que o coronel passa a se tornar um importante “intermediário” do jogo político. Sua atuação se respaldará, por um lado, no componente da violência (daí a força da expressão voto de cabresto) e, por outro, nas brechas deixadas pela legislação que permitia um enorme número de fraudes, dando condições para que o coronel manobrasse em favor dos grupos políticos dominantes. Estamos diante de um fenômeno nitidamente situacionista.

A contrapartida serão os favores: toda a sorte de benefícios e a proteção da lei.

Esse mecanismo, não só garantiu o jogo político nos municípios rurais, como serviu de base para a sua ampliação em escala estadual e para o apoio da política de poder federal: os arranjos da política dos governadores e política café com leite.

 

 

 

Abaixo temos uma leitura mais pormenorizada da obra de Victor Nunes Leal

 

 

A obra de Victor Nunes Leal foi publicada no final de década de 1940, sob o título Coronelismo, enxada e voto.

 

Buscando analisar os aspectos e funcionamento do fenômeno coronelismo, Nunes Leal, nas palavras de Barbosa Lima Sobrinho, cria uma obra que é “um instantâneo nítido de uma realidade que não se reproduz ou se repete, mas que continua tendo uma influência marcante na conjuntura nacional”.

 

O coronelismo teria predominado nas primeiras décadas da República – especificamente no período da chamada República Velha (1889-1930). Não que ele tenha se extinguido a partir de 1930, mas a partir desse momento teriam se realizado transformações importantes em suas bases. (Voltarei nesse ponto adiante)

 

Como fenômeno local, seu habitat eram os municípios do interior e o coronelismo se caracterizou pela incursão do poder privado no domínio político.

 

Não que isso signifique a simples afirmação do poder privado e a total debilidade do poder público.

 

Nunes Leal ressaltou, pelo contrário, a decadência econômica dos coronéis, mas, por outro lado, apontou também para uma certa debilidade do poder público.

 

Esta debilidade estava relacionada ao sistema representativo, visto que a Constituição de 1891 garantia o direito de voto a uma massa de homens pobres e desprovidos da capacidade de exercer conscientemente a sua função política.

 

É, portanto, na sobreposição da estrutura representativa a uma estrutura econômica e social precária que se estabelece o vínculo entre coronéis e os detentores do poder público.

 

O coronel aparece como principal cabo eleitoral dos políticos situacionistas. As elites estaduais contavam a seu favor com a submissão orçamentária dos municípios frente o poder estadual.

Assim para usufruir de benefícios o coronel precisava buscar apoio e apoiar potenciais candidatos vencedores. Sua condição situacionista lhe garantia, como contrapartida, benefíciamento para a suas terras, emprego para parentes e, principalmente, ter a seu favor a utilização da polícia.   Elemento, que num universo marcado pela violência, se tornava extremamente prioritário.

 

O coronelismo como fenômeno local se constituiu na base de um sistema que desaguava na eleição dos governadores e representantes estaduais.

 

Quando falamos dos atuais grupos políticos tradicionais não tomamos como referência  o modelo traçado por Nunes Leal, pois o impacto dos processos de urbanização, ampliação do eleitorado, atuação dos meios de comunicação e nacionalização da competição político-partidária-eleitoral redefiniram o campo das disputas partidárias, proporcionando o surgimento de novos atores políticos e de novas formas de mediação junto aos segmentos sociais.

 

Esses processos começam a se desenhar a partir de 1930, mas somente nas décadas de 1960, 70 e 1980 ganham contornos mais nítidos. Embora, seja importante ressaltar que a análise de Nunes Leal indica que, enquanto predominar uma estrutura agrária baseada no latifúndio, a política brasileira será marcada pela existência de traços do coronelismo.

 

 

O resultado atual mais imediato é a percepção de um processo de readaptação dos grupos familiares com o objetivo de manutenção do poder, pois em conjunto com o estabelecimento dos laços familiares e das relações de apadrinhamento, ocorreu a diversificação de atividades econômicas, que  mesclam as atividades empresariais rurais com as atividades empresariais urbanas e associativas - como ser sócios/proprietários de meios de comunicação ou mesmo dirigentes de agremiações esportivas. (Artigo publicado em O Estado de São Paulo, 21/10/2001, pp. A10 e A11).


 

Palavras chaves do coronelismo:

 

Voto de cabresto – o eleitor é coagido a votar no candidato do coronel. O voto é aberto e como as cédulas já são levadas preenchidas, o poder de manobra do coronel sobre o voto é maior;

Fraudes eleitorais – foram várias, que incluam desde o alistamento eleitoral até o momento da apuração dos votos. Exemplos – alistamento de eleitores fantasmas, voto em duplicidade ou mesmo a degola – prática, onde o nome dos candidatos opositores vencedores era retirado da lista dos eleitos;

 

Curral eleitoral – expressão utilizada para designar o controle do coronel sobre seus agregados;

 

Jagunços – capangas armados a serviço dos coronéis;

 

Troca de favores – o coronel barganha seu apoio político por empregos, benefícios e proteção da lei;



Escrito por Prof. João Carlos às 21h39
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Expansão marítima portuguesa

Resenha formulada a partir dos textos de Charles Boxer: “O ouro da Guiné e Preste João (1415-99), in: O Império Marítimo Português e
de Sérgio Buarque de Holanda: “As etapas dos descobrimentos portugueses”, in: História Geral da Civilização Brasileira, A época colonial.

Para iniciarmos é preciso lembrar que Portugal foi o primeiro na Europa a sistematizar o processo de navegações no Atlântico.

 

Isto implica, conforme Boxer, que houve precursores aos portugueses em relação às navegações pelo Atlântico (cartagineses; romanos, vikings ou polinésios), mas só Portugal tornou as navegações uma atividade constante.

 



Escrito por Prof. João Carlos às 02h45
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Expansão Marítima Portuguesa

 Condições para a empreitada:


Para Boxer Portugal era um dos poucos sem dissensões internas ou grandes conflitos externos.

Se pensarmos na obra de Raymundo Faoro, este autor aponta a importância da  aliança entre Monarquia e burguesia, na medida que desta aliança resultam os  investimentos para as grandes navegações.

Assim, Portugal também foi pioneiro em estabelecer as navegações como Projeto de Estado.

 

O Marco do processo de expansão marítima portuguesa (1415-99) foi a  conquista de Ceuta (norte da África) contra os sarracenos (mouros).

 

Para Charles Boxer esta conquista foi comemorada:


a) como conquista geopolítica: Ceuta representava uma cabeça de litoral e, portanto, seu controle representava um obstáculo a entrada dos mouros na Europa;


b) como conquista econômica: para alguns cronistas, 1415 representava a conquista de uma região rica em trigo, embora Boxer ressalte, que o trigo era importado;

 

c) finalmente, foi comemorada como conquista religiosa, visto que representava a continuidade da luta contra os infiéis.

 

De forma geral, Charles Boxer aponta quatro fatores para o desenvolvimento da Expansão Marítima Portuguesa:


a) o fervor religioso;

b) a procura de Preste João;

c) o desejo de se apoderar do ouro da Guiné;

d) a busca por especiarias orientais

 

Em resumo: dois motivos de cunho militar-religioso e dois  motivos de  cunho econômico;

 

 ÂNGULO RELIGIOSO


Para perceber a importância da questão religiosa é necessário atentar-se para a conexão  entre o Mito de Preste João, o desenvolvimento das Bulas papais e o Conceito de “Índias”.

 

Mito de Preste João: o mito ganhou força na Idade Média e partiu da crença de que existiria um Reino Cristão (mesmo cismático) entre a Ásia Central e o Norte da África (região da Abissínia, hoje Etiópia).

Acreditava-se que encontrar Preste João significaria obter um forte aliado na luta contra os islâmicos e, portanto, para a unificação do mundo cristão-católico.


A versão mais extravagante do mito de Preste João, indica Boxer, é que reuniam-se à mesa do rei (feita de esmeraldas) cerca de 30 mil pessoas para comer, com 12 arcebispos à sua direita e 20 bispos à sua esquerda.

 

Embora, esta versão mais extravagante não tenha ganhado força em Portugal é fundamental notar que ela unia o fervor religioso com a idéia de prosperidade.

Neste sentido, podemos destacar que o mesmo se estendia à noção de especiaria. Denominadas antes como aroma (pois representavam produtos colocados no altar dos deuses), as especiarias proporcionavam
(além do lucro), benefícios para a saúde e também o prazer.

 

Nesta perspectiva, a termo “Índias” (bastante vago geograficamente), foi associado, conforme Marilena Chauí, à idéia de “Paraíso Perdido”. Em outras palavras, região de abundância, mas dominada pelo pecado.

 

Talvez não à toa, a Igreja tenha fortalecido a relação entre expansão comercial e religiosidade.

Relata Boxer que, entre 1452 e 1456, Roma baixou três importantes Bulas Papais:


a) a  Dum diversas: 18-06-1452;

b) a Romanus Pontifex: 08-01-1454;

c) a  Inter caetera: 13-03-1456;

 

Grosso modo, estas bulas concedem a Portugal:


a) direito de atacar, conquistar e submeter sarracenos e capturar bens e territórios (Dum Diversas)

b) Submeter e converter os pagãos (Romanus Pontifex), além de estabelecer o  monopólio português sobre as conquistas;

c) manutenção das anteriores com a aclamação do Estado (a partir da figura de D. Henrique – o Príncipe Navegante) como dirigente das dioceses (Inter Caetera).

 

Importante, a Igreja reconhecia em Portugal esforço legitimo de ampliação da fé, com direito ao monopólio de conquista (até 1492) e à escravização dos povos  que resistissem à conversão ao catolicismo.

 

É necessário ressaltar, que mesmo em casos onde os negros abraçaram a conversão o Estado não conteve o seu ideal escravocrata.

 

Portugal inicia seu movimento escravocrata  com ataques às comunidades nativas do Litoral Oeste (principalmente os tuaregues) e, pouco a pouco, houve ampliação do alvo, tendo em mente, inclusive, o controle o tráfico interno de escravos existente na África sob domínio dos islâmicos e dos judeus.

 

Percebe-se que a ESCRAVIDÃO MODERNA, que os portugueses irão inaugurar a partir do século XV se diferencia da escravidão existente na Idade Média.

 

Parafraseando Alberto da Costa e Silva, na Idade Média o tráfico de escravos se estabelecia com fluxo e contra-fluxo (Ocidente-Oriente), sendo bem diversificado.
A própria palavra escravo, conforme o autor, é uma  derivação de slave = eslavo.

 

Já a Escravidão Moderna será predominantemente negra.

 

Em 1442, Portugal já tem a maior fatia do mercado. A exportação se desenvolve em direção à Europa (serviços domésticos) e depois para as  ilhas de Madeira (1419) e Açores (1439):  produção de açúcar.



Escrito por Prof. João Carlos às 02h44
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expansão marítima portuguesa

A Importância do tráfico pode ser medida pelos seguintes fatores:


a) Fernando Novais, indica que o tráfico foi a mola de acumulação de riquezas;

b) Já Caio Prado Jr., aponta sua importância como mecanismo para suprir a baixa densidade populacional portuguesa para realizar a atividade de colonização;

c) Boxer, por sua vez, dirá que o tráfico serviu para a manutenção das viagens (que geravam altos custos), compra de produtos europeus e para compensar:
a) o modesto valor das especiarias encontradas (pimenta malagueta – falsa pimenta);
b) também o pouco ouro encontrado (ouro em pó)

 

Observação. Conforme Boxer não se sabe, exatamente, a quantidade de ouro em pó encontrado pelos portuguese, mas, o ouro encontrado  permitiu a Portugal emitir o Cruzado  com enorme pureza entre 1457 e 1536.


Após encontrar o ouro da Costa do Ouro (inclusive de aluvião), Portugal obteve, entre 1496 e 1521, uma  média anual de ouro de 170 mil dobras. A moeda dobra chegou a valer 12 mil réis (em valores para a colônia brasileira).

Voltando à questão da relação entre a Igreja e a Expansão.

A Igreja assumiu posição conservadora diante da escravidão, a ponto de justificá-la.

Segundo Marilena Chauí, a justificação da escravidão se estabelecia a partir dos argumentos da civilidade e da religiosidade.

Assim:

 

- o branco europeu, católico, era visto como o portador da civilidade e da verdadeira religiosidade;
-- o  índio (pensando o Brasil), era visto como quem  adorava os totens, mas podia alcançar  o verdadeiro deus;

-- Já o negro, como se dedicava à feitiçaria, tinha sua alma condenada.

 

 

Isto não implica que a conversão do negro não foi incentivada, mas a este cabia o fardo do trabalho escravo.


Assim, a conversão do negro e a preocupação da Igreja para realizá-la, tinha como objetivo que se internalizasse a hierarquia social e o respeito as leis monárquicas.

 

i)                    ao senhor: recomendava-se a benevolência. O jesuíta Antonil deu vários conselhos de como os senhores deveriam castigar seus escravos, sem matá-los, pois tal ação levaria à perda de propriedade valiosa.

ii)                   ao escravo, recomendava-se  a resignação, pois Jesus Cristo havia carregado sua cruz pela  humanidade. O que seria o fardo da servidão?

 

 

A AÇÃO PRÁTICA

 

Da obtenção de escravos pela violência, os portugueses, pouco a pouco, estabelecem a tática da negociação.

Por duas razões:

i)                    porque os ataques eram mais eficazes contra as tribos de lavradores no litoral;

ii)                   como as caravelas ficavam restritas ao litoral, a incursão ao interior – em pequenas embarcações – deixavam os portugueses mais frágeis.


Por essa razão, os portugueses utilizaram-se dos
- lançados ou tangos-maos (Boxer): marinheiros ou degredados que se estabeleciam na terra africana para intermediar a venda de escravos junto aos chefes tribais;

-         outra figura importante foi a dos tradutores nativos (Alberto da Costa  Silva), que ao abraçarem o catolicismo aprendiam a língua portuguesa e eram levados de volta à África pra a mesma atividade de intermediação. O dono do escravo-tradutor ganhava escravos de acordo com a quantidade de novos cativos e o tradutor poderia receber a sua liberdade.

 

Para intensificar suas relações com chefes tribais, impedir invasões estrangeiras e demonstrar sua força, os portuguesesde construíram, no litoral, as feitorias.
Mas é importante observar que o poder de Portugal não atingiu o interior. Ali o controle sempre foi dos chefes tribais.

 



Resultados:

- 1450-1500: cerca de 150 mil escravos;
- Costa do Ouro 1496-1521 – média anual de ouro era de 170 mil dobras;
- 1497-99 – Vasco da Gama: 6000% lucro

Comércio extra: marfim; pimenta malagueta; macacos, araras (África)

- Europa: latão, contas de vidro, conchas e ostras, tecidos e fibras



Escrito por Prof. João Carlos às 02h35
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Técnicas e conhecimentos para as grandes navegações

a ser publicado no domingo



Escrito por Prof. João Carlos às 02h34
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