HISTÓRIA DO BRASIL REPÚBLICA - TEXTO PARA AC
RESENHA JOSÉ ENIO CASALECCHI A Proclamação da República, Coleção tudo é história, Brasiliense José Enio procura estabelecer, de forma bastante didática, uma abordagem dos fatores que influenciaram no processo de crise da Monarquia e Proclamação da República. Seguindo a tese de Viotti e Werneck Sodré, José Enio aponta que fatores como i) a atuação do Partido Republicano; ii) a abolição da escravidão e, iii) a Questão militar, tiveram influência marcante num cenário, onde a sociedade brasileira se encontrava em processo de transformação. Transformação esta relacionada ao desenvolvimento da economia cafeeira e ao surto de industrialização, que levaram – no plano econômico e social – a uma complexificação da sociedade e, no plano político – contando os fatores mencionados, a um isolamento da Monarquia e eclosão da idéia republicana. De forma sucinta podemos acompanhar a argumentação do autor abaixo: Introdução: José Enio descreve o quadro institucional no qual se baseara a Monarquia. O marco fundante é a Constituição de 1824 que estabelecia – além da divisão do poder – a forma de realização do processo eleitoral. Do ângulo de organização do poder, o Brasil imperial apresentava uma divisão de poder baseada: a) no poder Executivo – exercido pela figura do monarca; b) no poder Legislativo – representado pelo Senado e Câmara dos Deputados; c) no poder Judiciário – organizado nas várias instâncias do país, onde os juízes eram escolhidos pelo monarca; d) no poder Moderador – criação brasileira, garantia ao monarca o direito de arbitrar nas dissensões (controvérsias) existente entre o Executivo e o Legislativo. Embora alguns autores - e principalmente os críticos da Monarquia - afirmem que D. Pedro II exercia o poder de acordo com o seu “bel prazer”, a existência do Conselho de Estado indica que o monarca não governava sozinho, mesmo sendo claro que a Constituição de 1824 lhe atribuísse prerrogativas importantes tais como: organizar os gabinetes e escolher – numa lista tríplice- aqueles que seriam os senadores. Essa organização de poder, conforme aponta José Enio, além de garantir o poder real, se adequava à estrutura de poder econômico, visto que para ser eleitor e candidato se fazia necessário a posse de uma determinada renda. Assim os eleitores eram divididos em dois graus: os que possuíam renda liquida anual superior a 100 mil-réis (1º grau - os párocos) ganhavam o direito de escolher os eleitores (2º grau) – detentores de renda líquida anual superior a 200 mil-réis, que possuíam o direito de escolher os representantes para o Congresso. Poderia se candidatar a deputado quem possuísse – até 1881 – a renda liquida anual superior a 400 mil-réis e a senador, os possuidores de mais de 800 mil-réis. Em 1881 a exigência de renda se eleva, respectivamente, para 800 mil-réis e 1.600 contos de réis. Assim, poucos eram os eleitores brasileiros e minguada se tornava a representação política, que no período era exercida por dois partidos: o Partido Conservador e o Partido Liberal. Apesar de suas distinções regionais e programáticas – visto que o Partido Liberal apresentava uma bandeira mais progressista – o sistema eleitoral e a rotatividade no poder, estabelecido por D. Pedro II, levava a população a não identificar diferenças substantivas nos dois partidos. Assim valia a máxima que nada mais parecido com um conservador do que um liberal no poder. Ao longo do 2º Reinado (no período 1847-1889) o Brasil apresentou 30 gabinetes, sendo 15 conservadores, 14 liberais e 1 de conciliação (liberais e conservadores governaram juntos). Apesar do Partido Liberal e Conservador terem governado juntos de 1853 a 1858, suas diferenças irão se intensificar, principalmente com o desenvolvimento do movimento abolicionista, sendo que em 1873 políticos mais progressistas desses dois partidos irão formar o Partido Republicano. As transformações econômicas Importante fator para o desenvolvimento de mudanças na estrutura monárquica foi o desenvolvimento da economia cafeeira. O café é inicialmente cultivado na Baixada Fluminense, ganhando, em seguida, a fronteira entre Rio de Janeiro e São Paulo (o Vale do Paraíba) até conquistar o Oeste Paulista. Entre as décadas de 1830 e 1850, o café já correspondia a cerca da metade da exportação brasileira. O desenvolvimento da economia cafeeira gerou, de modo geral, dois efeitos importantes: 1º - levou a uma complexificação da sociedade brasileira, no sentido de que várias cidades se desenvolveram com a economia cafeeira, bem como os serviços ligados ao seu beneficiamento como o sistema de ferrovias, transportes e mesmo as atividades industriais. Esse processo intensificou a divisão de trabalho e operou em favor do incremento da utilização do trabalho livre assalariado. José Enio aponta para um diversificado rol de profissões que se estabelecem, incluindo religiosos, jutistas, médicos, farmacêuticos, advogados, artistas, empregados públicos, proprietários, profissões manuais ou mecânicas, etc. Não obstante é importante notar que cerca de 40% da população brasileira, em 1872, não possuía profissão. 2º - com a economia cafeeira nasce uma nova elite: é a elite moderna do Oeste Paulista, que apesar de possuir uma atividade agroexportadora, tem o seu modus vivendi voltado para o meio urbano. Essa elite “bebe” em uma nova cultura e novos hábitos, se beneficiando das transformações que ocorrem no seio da sociedade brasileira. No decorrer do final do século XIX os seus interesses entrarão em choque com a elite agrária tradicional, visto que a elite moderna deseja a substituição do escravo pelo trabalho livre, enquanto a elite agrária tradicional se agarrará na forma de trabalho escravo como tábua de salvação. Será a nova elite que encampará o discurso abolicionista e também republicano. A expansão das idéias republicanas Em 1870 será publicado o Manifesto Republicano. Três anos depois (1873) será criado o Partido Republicano em São Paulo, a partir da Convenção de Itu, que reuniu, principalmente, cafeicultores da elite moderna do Oeste paulista. As idéias republicanas voltadas ao Federalismo (autonomia das províncias) serão um ponto fundamental para a elite cafeicultura e já estavam presentes na sociedade brasileira desde o Período Regencial (1831-1840). Mas é importante frisar que a partir dos últimos 25 anos de Monarquia essas idéias ganharam o reforço do discurso abolicionista. A propaganda se realizou de forma constante, seja por intermédio de jornais republicanos ou por meio dos Clubes fundados nas principais cidades brasileiras. No entanto, faz-se necessária a ressalva, o Partido Republicano não era um partido homogêneo e não pouco foram os conflitos estabelecidos em seu interior. José Enio, tal como José Murilo de Carvalho, ressalta a força das dissidências no interior do Partido Republicano carioca, onde grupos se dividiam em torno de uma aliança com os militares (tese de Quintino Bocaiúva), de engrossar as fileiras do ideal abolicionista e de uma Revolução Popular (tese de Silva Jardim).
Escrito por Prof. João Carlos às 00h45
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